domingo, 8 de abril de 2007

CONSEQÜÊNCIAS DO AQUECIMENTO GLOBAL

A fronteira final

VEJA foi ao Ártico e à Antártica conferir os estragos causados
pelo aquecimento global. A notícia não é boa: as calotas polares
estão no limite da resistência

TRISTE DESTINO
Urso-polar vasculha lixo no Canadá. O maior predador
do Ártico está ameaçado pela redução da área de mar
congelado, seu território de caça


Nos pólos estão gravadas as informações que permitem entender o passado e fazer uma aposta segura de como será o futuro da Terra. O Ártico e a Antártica são ao mesmo tempo o termômetro das atuais alterações ocorridas no clima e um arquivo minucioso da história da atmosfera nos últimos milhões de anos. O que se ouve nos pólos agora é, infelizmente, um grito agônico: as mudanças que estão acontecendo por lá são mais rápidas e intensas do que as sentidas em qualquer outra parte do mundo. No Ártico, o ritmo da elevação da temperatura na atmosfera é o dobro da média global. A calota gelada do Oceano Ártico deve desaparecer totalmente durante o verão a partir de 2060. Na escala geológica, meio século é um piscar de olhos. As crianças de hoje serão testemunhas dessa mudança brutal e talvez não possam ver ursos-polares fora de zoológicos. A sobrevivência desse magnífico predador na natureza está ameaçada pela redução da área de mar congelado, seu território de caça. No sul, registra-se a formação de áreas verdes maior do que o comum na Península Antártica, antes predominantemente branca, como o resto do continente. Ninguém pode ficar indiferente diante dessas mudanças. O que ocorre nas regiões polares tem repercussão direta no equilíbrio climático em escala planetária.


MAIS GELO NA ÁGUA
Na Antártica, icebergs cada vez maiores têm se
soltado das geleiras. São tão grandes que alguns
levam mais de dez anos para derreter completamente

A compreensão do que acontece nos pólos se tornou tão crucial e urgente que mais de sessenta países, entre eles o Brasil, estão mobilizando 10.000 cientistas e vão dedicar 1,5 bilhão de dólares a 228 projetos de pesquisa no Ártico e na Antártica, como parte do Ano Polar Internacional 2007-2008, que começou em fevereiro. O pano de fundo das pesquisas é o aquecimento global, que é causado pelo aumento dos gases do efeito estufa na atmosfera, principalmente o dióxido de carbono, resultado da atividade humana. Esses gases formam uma espécie de cobertor em torno do planeta, impedindo que a radiação solar, refletida pela superfície em forma de calor, se dissipe no espaço. O efeito estufa é um fenômeno natural, que garante as condições de temperatura e clima necessárias para a existência de vida na Terra, mas agora se tornou sufocante. Quando esse mecanismo delicado saiu dos trilhos é uma das perguntas às quais a Antártica começa a responder. Quando a neve se solidifica, pequenas bolhas de ar ficam presas no gelo. O exame dessas bolhas em gelo formado nos últimos 720.000 anos, extraído na Antártica, mostra que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera tem oscilado para mais e para menos ao longo dos séculos, mas nunca foi tão elevada como hoje.
O terceiro relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), da ONU, divulgado na sexta-feira passada, coloca o Ártico no topo da lista das regiões sob pressão do aquecimento global, devido à elevação da temperatura superior à média mundial. As mudanças aceleradas na criosfera – como é chamado o conjunto dos ambientes congelados da Terra – terão repercussões dramáticas nas outras partes do mundo. "As regiões polares são como gigantes adormecidos: seu despertar será sentido com violência em toda parte", disse a VEJA o oceanógrafo americano Paul Berkman, da Universidade da Califórnia, que há mais de vinte anos pesquisa as regiões polares. Os pólos, devido a suas baixas temperaturas, ajudam a manter o clima global ameno, alimentando as correntes marítimas, resfriando as massas de ar e devolvendo ao espaço a maior parte da energia solar que recebem, graças a suas vastas superfícies brancas. Por isso, mesmo alterações aparentemente pequenas nos ambientes polares podem quebrar o equilíbrio climático do planeta. "Algumas projeções indicam que a superfície do Oceano Ártico vai ficar 12 graus mais quente quando todo o gelo derreter, alterando dramaticamente o clima no Hemisfério Norte", disse a VEJA o australiano Tim Flannery, autor do livro Os Senhores do Clima (Editora Record).

SOBRE O PÓLO SUL
Para não serem cobertos pela neve no inverno, os
prédios novos da estação científica Amundsen-Scott,
dos Estados Unidos, no Pólo Sul, foram construídos
sobre colunas hidráulicas
Uma dificuldade para a humanidade se preparar melhor para as mudanças climáticas decorre da falta de conhecimento científico sobre o Ártico e a Antártica. Os modelos meteorológicos usados na previsão do tempo ainda não dão o devido peso à influência dos pólos. "Uma melhor compreensão do complexo sistema climático das regiões polares faria a previsão do tempo de três dias de antecedência ser tão acurada quanto a de dois dias é hoje", afirma Rainer Vockenroth, chefe da base alemã de pesquisas polares em Ny-Ålesund, no arquipélago norueguês de Svalbard, localizada dentro do Círculo Polar Ártico, a apenas 1 200 quilômetros do Pólo Norte. O mesmo tipo de conhecimento é necessário para antecipar com maior precisão os efeitos do aquecimento global em todo o planeta. Já se sabe que o nível dos oceanos está aumentando 3 milímetros por ano por causa do derretimento do gelo dos pólos e dos glaciares das montanhas. A Groenlândia e a Antártica, que acumulam 99% do gelo do planeta, por enquanto respondem por 30% da elevação dos mares. Os glaciologistas estão tentando descobrir agora se – e quando – a perda de volume desses dois imensos reservatórios de água doce chegará ao ponto em que a elevação anual do nível do mar será medida em metros, não mais em milímetros. Nas páginas seguintes, o relato dos repórteres de VEJA enviados ao Ártico e à Antártica.

OCEANO EXPOSTO
Navio quebra-gelo em expedição científica no Ártico: a
área com gelo marinho está diminuindo


O manto de gelo da Antártica se acumulou em camadas sucessivas à razão média de 5 centímetros por ano. Amostras do ar do planeta ficaram encapsuladas em bolhas em cada camada. Os cientistas hoje usam brocas para extrair pedaços cilíndricos desse gelo ancestral de profundidades que ultrapassam os 3000 metros. Dessa forma, conseguem obter amostras do ar da Terra de até quase 800 000 anos atrás. Uma das conclusões: altas concentrações atmosféricas de gases ligados ao efeito estufa podem ser produzidas apenas pela natureza - sem a participação do homem. Mas, quando se somaram as fontes naturais desses gases - como as erupções vulcânicas - com as fontes inerentes ao atual estágio tecnológico da civilização - fábricas e motores -, as concentrações atingiram índices recordes.
* Partes por milhão, índice usado para indicar a concentração de CO2 na atmosfera
** Inferida com base na análise dos isótopos de hidrogênio e calgênio presentes no gelo
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Interessante esta matéria da Veja, vale a pena conferir.




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