segunda-feira, 28 de maio de 2007

CRÔNICA

A fé e a faca amolada

Extraído: Jornalista Cláudio Paiva ( colunista do jornal o Globo )

Fui batizado numa igreja católica, mas meus pais, como a imensa maioria do povo brasileiro, sempre misturaram alhos com bugalhos. Lembro de uma senhora que ia lá em casa rezar a família. Era uma nordestina adorável que recebia o caboclo Tupinambá. Nunca me esqueci da casa cheirando a defumador. De vez em quando, nosso “personal-pai-de-santo” receitava um “banho de descarrego”. Mamãe preparava uma infusão de ervas e jogava aquele negócio na gente. Levávamos dias achando folhinha de não sei o quê em lugares que vocês nem imaginam! Teve a fase da devoção a Iemanjá. Quando compramos um fusquinha, minha mãe inventou uma espécie de drive-thru da fé. Ela dirigia até a praia, abria a janela e jogava flores para a Rainha do Mar. Tudo muito prático. Depois vieram Escrava Anastácia, Santo Expedito, Xangô e Cosme e Damião. Na lavanderia tinha um altar improvisado com a imagem dos santos gêmeos e um pires onde minha mãe botava moedinhas em troca de pedidos. Quando a situação apertava, ela pedia licença e recolhia de volta o dinheiro.

À igreja católica só voltei para fazer a primeira comunhão. Como estávamos duros na época, herdei a roupa e a vela dos meus irmãos. Meu pai se dava ao trabalho de cortar a ponta queimada com uma faca para fingir que era nova. Sobrou pra mim uma vela meio curtinha. Mas tive direito a santinho com meu nome em letras douradas. As fotos é que só foram feitas depois. Papai comprou um filme, me fez vestir a roupa branca, segurar a vela cotó e posar em frente ao portão da garagem como se tivesse feito a comunhão ali mesmo.

Me lembro de tentar acompanhar uma ou outra missa, mas sempre fui meio desajeitado para a coisa. Ficava folheando meu livrinho de catecismo e só achava a página certa quando todo mundo já estava dizendo “amém”. Com o tempo, aprendi a ficar mexendo a boca para ninguém notar que eu estava perdido. Só sabia onde ficava o Pai Nosso, que eu rezava com muito entusiasmo. Até hoje é a única reza que sei de cor. Na adolescência fui algumas vezes uma missa meio moderninha, com guitarra tudo, só para azarar as meninas na saída. Deus há de me perdoar por isso. Anos depois me casei na igreja e minhas duas filhas foram batizadas como eu fui. A menor (que está cada vez maior!) estuda no São Vicente, uma escola que admiro por sua conduta humanista.

Missa, agora, só de sétimo dia, quando morre algum conhecido. Das sessões com o caboclo Tupinambá, adaptei alguns rituais. Tomo banho quente quando estou “carregado” e acendo incensos pela casa. Nada de defumador. Uso incenso da L’Occitane. Virei um macumbeiro meio metido a besta. Com meus pais, aprendi ter fé. Não sei bem no quê, mas eu tenho.
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A maioria dos brasileiros são assim, não sabem de que religião são verdadeiramente, fazem um tremendo sincretismo religioso, uma hora acendem uma vela para Deus e outra hora, uma para o diabo.

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